Origens Secretas do Bitcoin: A Verdade Sobre Privacidade que Ninguém te Contou
- pv fraga
- 29 de jul. de 2025
- 9 min de leitura

No final do século XX, enquanto a maioria da população sequer imaginava o potencial da internet, um grupo de visionários já antevia um futuro onde a privacidade, a liberdade e a descentralização seriam defendidas por meio da criptografia. Os Cypherpunks eram programadores que acreditavam que a criptografia poderia ser a ferramenta definitiva para proteger o indivíduo contra a a censura e abuso de autoridade estatal. Os destaques ficam com o Manifesto Criptoanarquista de Timothy C. May e o Manifesto Cypherpunk de Eric Hughes. Esses documentos não apenas previram o surgimento de tecnologias como Bitcoin, PGP e Tor, mas também moldaram a luta pela privacidade na era digital. O legado de May e Hughes, homens cujas previsões sobre privacidade, moedas digitais e resistência à vigilância governamental se tornaram realidade de maneiras que nem eles poderiam ter imaginado.
A Formação de Gênios
Timothy Christopher May, desde cedo, demonstrou uma mente brilhante, com inclinação para a física e a tecnologia. Formou-se em Física e trabalhou na Intel durante os anos 1970, onde contribuiu para o desenvolvimento de microprocessadores. No entanto, sua carreira na engenharia seria apenas o prelúdio para seu verdadeiro impacto no mundo. Inspirado pelos escritos de Ayn Rand, Friedrich Hayek e pensadores libertários, May começou a questionar as estruturas de poder centralizado e a buscar formas de proteger a liberdade individual em um mundo cada vez mais digital.
Eric Hughes foi um matemático, criptógrafo e um dos fundadores do movimento Cypherpunk, cuja carreira foi marcada pela defesa intransigente da privacidade digital e da liberdade de informação. Formado em matemática pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Hughes destacou-se como um dos principais teóricos e ativistas da criptografia aplicada, colaborando ativamente na lista de e-mails dos Cypherpunks nos anos 1990. Além de escrever o Manifesto Cypherpunk (1993), que se tornou um dos textos fundadores do movimento, Hughes também trabalhou no desenvolvimento de sistemas de privacidade e foi um dos primeiros a operar um remailer anônimo, tecnologia que permitia o envio de e-mails sem revelar a identidade do remetente. Sua carreira refletiu a convicção de que a criptografia deveria ser acessível a todos como ferramenta de emancipação, influenciando gerações de desenvolvedores e ativistas digitais. Mas esses visionários não estavam sozinhos, nos anos 80, um movimento começava a tomar forma.
Origens do Movimento Cypherpunk
Nos anos 80 e 90, a internet ainda estava em seus primórdios, mas governos e empresas já demonstravam interesse em controlar e monitorar comunicações digitais. A National Security Agency (NSA) dos EUA tentou restringir o uso de criptografia forte, classificando-a como uma "arma" sujeita a regulamentação.
Foi nesse ambiente que surgiram os Cypherpunks, um movimento que combinava ideias libertárias inspiradas em Ayn Rand, no ganhador do Nobel de Economia Friedrich Hayek, tecnologia de criptografia (como RSA, PGP e sistemas de anonimato), ativismo digital levantando as bandeiras de resistência à censura e vigilância estatal.
Alguns dos nomes mais influentes do movimento incluíam os já citados Timothy C. May e Eric Hughes, ademais, Julian Assange fundador do WikiLeaks, Hal Finney que era criptógrafo e primeira pessoa a receber uma transação Bitcoin e Phil Zimmermann (criador do PGP, Pretty Good Privacy). Eles se reuniam em listas de e-mail privadas e conferências, discutindo como a criptografia poderia ser usada para descentralizar o poder do estado e lutar contra os abusos de autoridades. A visão era clara: a tecnologia deveria ser usada para proteger o indivíduo contra opressões de governos e corporações.
O Nascimento da Criptoanarquia
No final dos anos 1980, May entrou em contato com um grupo de cypherpunks—ativistas que acreditavam na criptografia como ferramenta de emancipação política. Em 1988, ele escreveu o Manifesto Criptoanarquista, um texto seminal que previu muitas das coisas que podemos observar atualmente. Veja abaixo texto traduzido na íntegra:
Um espectro ronda o mundo moderno: o espectro da criptoanarquia.
A tecnologia computacional está prestes a permitir que indivíduos e grupos se comuniquem e interajam de forma totalmente anônima. Duas pessoas poderão trocar mensagens, fazer negócios e firmar contratos eletrônicos sem jamais conhecer o nome verdadeiro ou a identidade legal uma da outra. As interações nas redes serão irrastreáveis, graças ao roteamento complexo de pacotes criptografados e a dispositivos invioláveis que executam protocolos criptográficos com segurança quase absoluta contra qualquer interferência. A reputação será crucial, muito mais importante nas transações do que os "créditos" de hoje. Esses avanços mudarão completamente a natureza da regulação estatal, a capacidade de tributar e controlar interações econômicas, o sigilo de informações e até mesmo os conceitos de confiança e reputação.
A tecnologia para essa revolução — que será tanto social quanto econômica — já existe teoricamente há uma década. Seus métodos incluem criptografia de chave pública, sistemas de prova de conhecimento zero e diversos protocolos de interação, autenticação e verificação. Até agora, o debate se concentrou em conferências acadêmicas nos EUA e Europa, vigiadas de perto pela NSA. Porém, só recentemente as redes e computadores pessoais atingiram velocidade suficiente para tornar essas ideias realizáveis na prática. Na próxima década, ganharão velocidade suficiente para se tornarem economicamente viáveis e essencialmente imparáveis. Redes de alta velocidade, ISDN, dispositivos invioláveis, cartões inteligentes, satélites, transmissores em banda Ku, PCs com múltiplos MIPS e chips de criptografia em desenvolvimento serão algumas das tecnologias habilitadoras.
O Estado, é claro, tentará frear ou barrar essa tecnologia, citando preocupações com segurança nacional, uso por traficantes e sonegadores, e medo de desintegração social. Muitas dessas preocupações serão válidas: a criptoanarquia permitirá que segredos nacionais sejam vendidos livremente e que materiais ilícitos ou roubados sejam negociados. Um mercado informatizado e anônimo até mesmo viabilizará mercados abomináveis de assassinatos e extorsão. Criminosos e agentes estrangeiros usarão ativamente essas redes. Mas nada disso impedirá a expansão da criptoanarquia.
Assim como a imprensa abalou o poder das guildas medievais e das estruturas sociais, os métodos criptológicos revolucionarão a natureza das corporações e da interferência governamental em transações econômicas. Combinada com mercados de informação emergentes, a criptoanarquia criará um mercado fluido para todo material que possa ser expresso em palavras e imagens. E assim como o arame farpado — uma invenção aparentemente trivial — permitiu cercar vastas fazendas e mudou para sempre os conceitos de terra e propriedade no Oeste americano, a descoberta aparentemente obscura de um ramo da matemática se tornará o alicate que desmonta o arame farpado em torno da propriedade intelectual.
Levantem-se! Vocês não têm nada a perder, exceto seus cercados de arame farpado!
May argumentava que a criptografia permitiria a criação de mercados digitais livres, comunicações invioláveis e até mesmo moedas digitais descentralizadas—tudo isso décadas antes do Bitcoin.
O Manifesto Cypherpunk
Em 1993, Eric Hughes publicou o Manifesto Cypherpunk, definindo os princípios do movimento. A seguir, o texto traduzido na íntegra:
A privacidade é necessária para uma sociedade aberta na era eletrônica. Privacidade não é sigilo. Um assunto privado é algo que alguém não quer que o mundo todo saiba, mas um assunto secreto é algo que alguém não quer que ninguém saiba. Privacidade é o poder de se revelar seletivamente ao mundo.
Se duas partes têm algum tipo de interação, cada uma guarda uma memória dessa troca. Cada parte pode falar sobre sua própria memória do ocorrido — como alguém poderia impedi-la? Poderiam criar leis contra isso, mas a liberdade de expressão, ainda mais fundamental que a privacidade, é essencial para uma sociedade aberta; não buscamos restringir nenhum discurso. Se várias partes falam juntas em um mesmo fórum, cada uma pode compartilhar conhecimento com as outras e agregar informações sobre indivíduos e demais grupos. O poder das comunicações eletrônicas tornou esse discurso coletivo possível, e ele não desaparecerá só porque desejarmos que assim seja.
Como queremos privacidade, devemos garantir que cada parte em uma transação saiba apenas o que é diretamente necessário para aquela interação. Como qualquer informação pode ser divulgada, devemos revelar o mínimo possível. Na maioria dos casos, a identidade pessoal não é relevante. Quando compro uma revista em uma loja e entrego dinheiro ao caixa, não há necessidade de saber quem eu sou. Quando peço a meu provedor de e-mail que envie e receba mensagens, ele não precisa saber com quem falo, o que digo ou o que outros me dizem; só precisa saber como entregar a mensagem e quanto devo pagar por isso. Quando a identidade é exposta pelo mecanismo subjacente à transação, não há privacidade. Não posso me revelar seletivamente; sou obrigado a me revelar.
Portanto, a privacidade em uma sociedade aberta exige sistemas de transação anônimos. Até hoje, o dinheiro em espécie tem sido o principal sistema desse tipo. Um sistema de transação anônima não é um sistema secreto. Um sistema anônimo dá às pessoas o poder de revelar sua identidade quando e apenas quando desejarem — e essa é a essência da privacidade.
A privacidade em uma sociedade aberta também exige criptografia. Se digo algo, quero que apenas meus destinatários pretendidos me ouçam. Se o conteúdo do que falo está disponível ao mundo, não tenho privacidade. Criptografar é manifestar o desejo por privacidade — e usar criptografia fraca é sinal de que esse desejo não é tão forte. Além disso, para revelar a própria identidade com segurança quando o padrão é o anonimato, é necessária a assinatura criptográfica.
Não podemos esperar que governos, corporações ou outras grandes organizações sem rosto concedam privacidade por benevolência. É vantajoso para eles falar sobre nós, e devemos esperar que o façam. Tentar impedir seu discurso é lutar contra a realidade da informação. A informação não apenas deseja ser livre — ela anseia por liberdade. A informação se expande para ocupar todo o espaço de armazenamento disponível. A informação é o irmão mais novo e forte do Boato; é mais ágil, tem mais olhos, sabe mais e entende menos que ele.
Se quisermos ter privacidade, precisamos defendê-la nós mesmos. Devemos nos unir e criar sistemas que permitam transações anônimas. Por séculos, as pessoas protegeram sua privacidade com sussurros, escuridão, envelopes, portas fechadas, apertos de mão secretos e mensageiros. As tecnologias do passado não permitiam privacidade robusta, mas as tecnologias eletrônicas permitem.
Nós, os Cypherpunks, somos dedicados à construção de sistemas anônimos. Defendemos nossa privacidade com criptografia, sistemas de encaminhamento anônimo de e-mails, assinaturas digitais e dinheiro eletrônico.
Cypherpunks escrevem código. Sabemos que alguém precisa desenvolver software para defender a privacidade e, como ela só existe se todos a tivermos, nós a criaremos. Publicamos nosso código para que outros Cypherpunks possam testá-lo e usá-lo. Nosso software é livre para todos, em qualquer lugar. Não nos importamos se você não aprova o que programamos. Sabemos que software não pode ser destruído e que um sistema amplamente disseminado não pode ser desativado.
Cypherpunks repudiam regulamentações sobre criptografia, pois criptografar é um ato inerentemente privado. O ato de criptografar, de fato, remove informações do domínio público. Leis contra criptografia só têm alcance dentro das fronteiras de um país e no limite de seu poder coercitivo. A criptografia se espalhará inevitavelmente por todo o globo, e com ela, os sistemas de transação anônima que possibilita.
Para que a privacidade seja ampla, ela deve fazer parte de um contrato social. As pessoas precisam se unir e implantar esses sistemas para o bem comum. A privacidade só existe na medida da cooperação dos outros membros da sociedade. Nós, Cypherpunks, buscamos suas dúvidas e preocupações e esperamos dialogar com você para não nos iludirmos. Mas não mudaremos nosso rumo só porque alguns discordam de nossos objetivos.
Os Cypherpunks estão empenhados em tornar as redes mais seguras para a privacidade. Avancemos juntos.
Em frente.
Os pontos-chave do manifesto incluíam a criptografia como ferramenta de libertação, anonimato digital como um direito fundamental e a necessidade de sistemas descentralizados para evitar censura e abuso de autoridade.
Previsões que se Tornaram Realidade
Muitas das ideias de May, que pareciam radicais nos anos 1990, hoje são realidade:
Criptomoedas
Mercados Secretos, como o Silk Road, que operava com criptografia
Comunicação encriptada (Signal, Telegram, PGP).
Vigilância em massa exposta, como os vazamentos de Snowden.
Tor (The Onion Router) – Rede de anonimato criada para proteger dissidentes políticos.
Bitcoin – Embora Satoshi Nakamoto não fosse um Cypherpunk declarado, o whitepaper do Bitcoin claramente mostra muitas influências inspiradas no movimento.
May previu um mundo onde a matemática substituiria a confiança em instituições, e o surgimento do blockchain provou que ele estava certo.
O Legado
Hoje, em uma era de vigilância massiva, censura digital e centralização corporativa, o Manifesto Criptoanarquista permanece mais relevante do que nunca. Eles nos lembram que a liberdade não é dada, ela é construída(e com códigos).Criptografia forte agora é padrão (HTTPS, Signal, Telegram). O Bitcoin e as criptomoedas desafiam o sistema financeiro tradicional controlado pelos Bancos Centrais mundo afora. Vazamentos como os de Edward Snowden provaram que a vigilância em massa é real.Apesar de tudo, governos ainda tentam regular a internet, como no caso da Apple vs. FBI, os Supremos Tribunais perseguindo pessoas e vários outros atos estatais que tentam censurar e calar. Grandes empresas, como o Google e a Meta, coletam dados em escala sem precedentes (você já aceitou vários cookies por aí?)
Futuro da Internet
Os cypherpunks nos deixaram um aviso: se não defendermos a privacidade agora, ela desaparecerá. Com o avanço da IA, reconhecimento facial e CBDCs (moedas digitais de bancos centrais), a luta pela liberdade digital é mais importante do que nunca.
Timothy C. May foi um profeta da era digital. Suas ideias desafiaram o status quo e inspiraram gerações de desenvolvedores, ativistas e libertários. Ainda que o mundo não tenha se tornado completamente criptoanarquista, sua influência é inegável. Se hoje seus dados bancários e documentos são mantidos em sigilo, muito se deve à preocupação inicial deste movimento.
Você acredita que ainda é possível ter privacidade na era digital? Comente abaixo!
Até o próximo artigo, que vou abordar sobre as origens do Facebook.
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