No dia 17 de agosto, uma segunda-feira, o Google mudou o funcionamento do Smart Bidding em contas do mundo inteiro. Não teve keynote, não teve banner piscando na interface, não teve e-mail com assunto em caixa alta. Se você gerencia campanhas limitadas por orçamento com Target CPA ou Target ROAS, a mudança está rodando na sua conta há quatro dias — e a maior parte do mercado ainda não abriu a planilha para olhar.
A descrição oficial tem uma inocência quase cômica: campanhas limitadas por orçamento que usam estratégia de lance baseada em target vão passar a performar "de forma mais consistente em direção ao seu target". Leia de novo, prestando atenção na direção. Em direção ao target. Não abaixo dele.
Traduzindo para a língua de quem paga a fatura: se o seu Target CPA era 50 reais e a campanha vinha entregando 35, o Google vai parar de te entregar 35.
Praticamente tudo que se escreveu sobre isso foi publicado antes do dia 17, no formato "o que fazer antes do prazo". O prazo passou. Este artigo é a outra metade da conversa: já aconteceu, está no seu histórico, e o interessante agora não é o checklist preventivo — é o que os números dos próximos trinta dias vão revelar sobre a sua operação.
O que mudou, sem eufemismo
Os fatos, direto da documentação do Google Ads:
- A partir de 17 de agosto de 2026, campanhas limitadas por orçamento que usam estratégia de lance baseada em target passam a otimizar consistentemente para o target declarado, inclusive quando você mexe no orçamento.
- Afeta Pesquisa, Shopping, Performance Max, Demand Gen, Display, Hotel e Travel.
- Não afeta campanhas de App, Video reach e Video view, que mantêm o comportamento antigo.
- Vale em Google Ads, Search Ads 360, Display & Video 360, Google Ads Editor e na API.
- Campanhas que não estão limitadas por orçamento não mudam de comportamento.
Esse último ponto é o mais importante e o mais ignorado. O gatilho da mudança é o status "Limitado por orçamento" — aquele rótulo que muita gente exibe em reunião como troféu, prova de que achou um canal que aguenta mais dinheiro. Esse troféu virou uma conta a pagar.
O Google também abriu, em 6 de julho, uma ferramenta de ajuste de target dentro da plataforma, acessível pelas notificações da conta ou pela página de Campanhas. Ou seja: houve seis semanas de aviso. Se você não usou, não foi porque esconderam.
O Google não está mentindo. Os gestores também não.
Aqui está a parte que a maioria dos textos sobre o assunto embolou, e vale desembolar com cuidado, porque a confusão está fazendo gente boa tirar a conclusão errada.
Quando o mercado começou a ler a mudança como "o Google liberou o sistema para gastar mais", Ginny Marvin, a Ads Liaison do Google, foi direta: a afirmação é incorreta, e a mudança não vai levar a aumento de gasto. O Google reforçou dois pontos junto: limites de orçamento diário e mensal continuam sempre respeitados, e a empresa não vai ajustar automaticamente orçamentos nem targets das suas campanhas — se você quisesse preservar a performance anterior, o ajuste manual era com você.
Ao mesmo tempo, gestores experientes reagiram com irritação legítima. Joey Bidner apontou que várias das suas melhores contas rodam intencionalmente com tROAS baixo ou tCPA alto, usando essa folga como estratégia. Nils Rooijmans avisou que quem deixar os targets como estão vai ver "queda de eficiência do gasto". E Xavier Mantica fez a pergunta mecânica mais afiada de todas: como exatamente o algoritmo vai alcançar o target — ele simplesmente vai subir os CPCs até inflar o meu CPA?
Os dois lados estão certos, e é por isso que a discussão travou. Eles estão falando de duas variáveis diferentes:
- O gasto total não sobe. O orçamento é um teto rígido. O Google está tecnicamente correto, sem asterisco.
- O custo por resultado sobe. Mesmo dinheiro entrando, lances mais agressivos, leilões mais caros que antes eram ignorados. Mesmo gasto, CPA maior, menos conversões no fim do mês.
Não existe contradição entre as duas frases. Existe uma escolha de qual delas você coloca no slide. O Google mede gasto. Você é medido por resultado. A mudança mexe exatamente na variável que não aparece no comunicado.
E respondendo o Mantica: sim, é isso. O caminho para chegar num CPA mais alto, com orçamento travado, é comprar inventário mais caro — entrar em leilões que a conservadoria do sistema vinha evitando. Não existe outra alavanca.
O target nunca foi uma meta. Era um teto.
Agora a parte que interessa de verdade, porque ela não é sobre Google Ads.
Durante anos, o campo "Target CPA" funcionou na prática como duas coisas ao mesmo tempo, e quase ninguém separou: um objetivo para o algoritmo perseguir e um limite de tolerância que você declarou aceitar. Em campanha com orçamento sobrando, ele agia como objetivo. Em campanha limitada por orçamento, agia como teto — o sistema tinha mais demanda qualificada do que dinheiro, escolhia as oportunidades mais baratas primeiro, gastava tudo e entregava bem abaixo do que você tinha autorizado.
A diferença entre o que você autorizou e o que você pagou tem um nome em economia: excedente do consumidor. Você disse "pago até 50" e pagou 35. Os 15 de diferença eram seus, e eram estruturais — não vinham do seu talento, vinham da conservadoria do sistema diante de um orçamento apertado.
O que aconteceu no dia 17 foi a coleta desse excedente. O Google não roubou nada e não escondeu nada. Ele simplesmente parou de te cobrar menos do que você tinha dito que estava disposto a pagar.
Repare no desenho de incentivo, que é elegante e não precisa de teoria da conspiração para funcionar. Com a folga eliminada, a sua eficiência medida passa a ser igual à sua tolerância declarada. E se você quiser mais conversões, sobrou exatamente um caminho — o mesmo que a documentação do Google recomenda em voz alta: aumentar o orçamento. A mudança não transfere dinheiro da sua conta hoje. Ela transforma um ganho de eficiência invisível numa decisão de orçamento explícita. É uma engenharia de incentivo muito melhor que um aumento de preço, porque é defensável em qualquer auditoria: você recebeu exatamente o que pediu.
A pergunta que ninguém quer fazer na reunião
Eu já escrevi aqui que o seu ROAS é uma mentira. Este é o caso mais limpo dessa tese que apareceu em anos, e ele veio de graça, na forma de um experimento natural que o Google acabou de rodar na sua conta sem pedir licença.
A pergunta é esta: quanto do seu case de performance era competência e quanto era folga do sistema?
Se você tinha campanha limitada por orçamento com CPA bem abaixo do target e apresentava isso como resultado de gestão — otimização de criativo, refinamento de público, exclusão de termos, estrutura de campanha — os próximos trinta dias vão dizer quanto disso era verdade. Se o CPA subir até encostar no target sem que nada na sua operação tenha mudado, a resposta é desconfortável: parte da sua performance era um artefato da timidez do algoritmo diante de um orçamento curto.
Isso não é vergonha, e não é acusação. É informação que antes era impossível de obter, porque não havia como separar as duas coisas. Agora há. Gestor honesto vai usar essa janela para calibrar o que realmente controla. Gestor menos honesto vai passar setembro explicando que "o mercado ficou mais competitivo".
Existe também um recado para o outro lado da mesa. Se você é o cliente ou o dono do negócio e o seu CPA subiu 30% em setembro sem nenhuma mudança de estratégia, antes de trocar de agência: pergunte se as campanhas estavam limitadas por orçamento e qual era o gap entre target e realidade em julho. Pode ser que a agência não tenha feito nada de errado — e pode ser que ela tenha deixado de fazer um ajuste que tinha seis semanas de aviso. As duas hipóteses são verificáveis em cinco minutos de relatório.
Como ler a sua conta nesta semana
Estamos no dia quatro. Isso muda o que faz sentido fazer, e a ordem importa.
Não olhe o Performance Planner agora. Entre 17 e 31 de agosto ele está trabalhando com um modelo de comportamento que acabou de mudar embaixo dele. Qualquer projeção que ele te der neste período é ficção. Volta a valer em setembro.
Não empilhe correções. A janela de observação pura dos primeiros dias já passou, mas o princípio segue: o Smart Bidding reage a mudança de target em tempo real. Se você mexer em target, orçamento e criativo na mesma semana em que o sistema inteiro mudou, você perde qualquer chance de saber o que causou o quê. Uma variável por vez.
Levante a lista certa. Puxe todas as campanhas que apareceram como "Limitado por orçamento" nos últimos doze meses — não só as que estão com o rótulo hoje. Campanha que ficou limitada de forma intermitente entra na conta e é a mais fácil de perder. Filtre por Target CPA, Target ROAS e Target CPC (esse último só em Demand Gen).
Priorize por dinheiro, não por gap. Aqui está o erro que vai fazer gente perder a semana ordenando a planilha errada. O que importa é gap multiplicado por gasto mensal, não o tamanho do gap. Um gap de 2x numa campanha de 400 reais por mês é irrelevante. Um gap de 20% numa campanha de 80 mil por mês é o seu trimestre. Ordene por exposição financeira e trabalhe de cima para baixo.
Use a janela de dados certa. Trinta dias para campanhas de alto volume; sessenta a noventa para campanhas de dados magros. E julgue pelo ciclo de conversão do seu negócio, não pelo calendário — se o seu lead demora dezoito dias para fechar, olhar resultado no dia sete não é análise, é ansiedade.
As cinco saídas
Para cada campanha da lista, existem cinco decisões possíveis. Nenhuma delas é "esperar para ver".
- Manter o target como está — mas só se você conseguir articular por que, em voz alta, sem usar a palavra "histórico". Folga deliberada é uma estratégia legítima; folga esquecida não é. Se manter, dê buffer de orçamento e considere consolidar campanhas que dividem o mesmo target sob portfolio bidding.
- Igualar ao realizado recente — a recomendação padrão do Google. Entregava 35 com target de 50? Coloque 35. É a saída mais segura e a que preserva melhor o resultado que você já tinha.
- Recalcular pela unidade econômica — o caminho certo quando o target foi herdado e nunca passou por teste de estresse. Quanto você pode pagar por uma conversão, dado o seu ticket, sua margem e sua taxa de fechamento? Modele no simulador de lances antes de aplicar.
- Subir em degraus — mover devagar, não de uma vez. Ajuste grande joga a campanha em fase de aprendizado e a volatilidade vai mascarar o efeito real da mudança.
- Aumentar o orçamento em vez do target — válido quando o target está genuinamente certo e existe demanda acima do seu teto. Depois do dia 17, aumento de orçamento escala no target declarado, o que é justamente a única parte da mudança que trabalha a seu favor: o resultado passa a ser previsível quando você escala.
Duas coisas que não são solução, apesar de estarem sendo sugeridas por aí: exclusão de dados e limites de lance manuais. Ambas trazem risco de flutuação de performance e nenhuma trata a causa.
E o mais importante: isso não é um mutirão de agosto. Target contra realizado em campanha limitada por orçamento não fica resolvido só porque você arrumou uma vez. A performance se move, o gap reabre. Isso virou item de rotina mensal.
A lição que sobrevive ao Google Ads
Se você esquecer todo o resto, guarde esta frase: todo campo que uma plataforma te deixa preencher com um número de tolerância é um preço que você concordou em pagar.
Você não preencheu aquele Target CPA de 50 reais pensando "quero pagar 50". Você preencheu pensando "não pago mais que 50". A plataforma leu a primeira versão. E enquanto a diferença entre as duas leituras estava caindo no seu bolso, ninguém precisou notar a ambiguidade.
Essa mesma ambiguidade está espalhada por toda a sua stack. O ROAS mínimo que você configurou no bidding. O CPL máximo que você declarou na ferramenta de mídia. O desconto que você autorizou o time comercial a dar "se precisar". O prazo de entrega que você prometeu com gordura. Cada um desses números é uma tolerância que algum sistema — ou alguma pessoa — pode um dia decidir consumir inteira, sem quebrar nenhuma regra e sem te avisar.
A conclusão prática não é ficar paranoico. É auditar, uma vez por trimestre, todo número de tolerância que você declarou para um sistema automatizado, e responder duas perguntas: quanto de folga existe entre isso e a realidade hoje? e se essa folga desaparecesse amanhã, eu sobreviveria?
Folga que você não mede é folga que você vai perder. O Google acabou de provar isso numa segunda-feira, sem aviso na sua conta.
Se você quer que alguém olhe essa lista de campanhas com você antes que setembro feche, é exatamente esse tipo de trabalho que eu faço. Entre em contato.
Referências
- Google Ads Help — Changes to target based bid strategies
- Search Engine Journal — Google Is Ending Target Overperformance: What To Fix Before August 17
- Optmyzr — Google's August 17 Bidding Change: What Advertisers Need to Do Now
- TechWyse — Google Clarifies Smart Bidding August 17 Update
- Almcorp — Google Smart Bidding Update August 2026: Target CPA and ROAS Rules
- Avocadots — What advertisers need to do before August 17, 2026
Escrito por
Paulo Victor Fraga
Comentários(0)
Seja o primeiro a comentar.
